segunda-feira, 5 de março de 2012

II Episódio elaborado por Ana, Maria Alcina, Maria Emília e Maria Manuela

As aventuras de Alcatruz e Catrapuz II Episódio

II EPISÓDIO

O rei Foribundo IV tinha um grande problema, no dia em que os filhos foram à gruta da mariposa sem o seu conhecimento, para desfazer o bruxedo, ele na toilete da manhã, ao coçar o céu da boca com uma escova de dentes, engoliu-a e ela ficou alojada entre as cordas vocais, por isso não podia falar e passava os dias no seu quarto e salão, sem ver ninguém.

Devido ao trágico acontecimento da escova enfiada nas goelas reais, ele tinha resolvido entregar a regência do reino aos seus filhos, mas o bruxedo da bruxa Ziripela, a mando dele, sendo assim o culpado daquela maldição, já se tinha concretizado. Procurou a bruxa para desfazer o feitiço, devido ao estado de saúde em que se encontrava, mas não a encontrou e além disso ela não compreenderia a escrita do escriba que traduzia os seus urros. Restava-lhes os filhos para governar, se não tinha de entregar o reino ao seu primo e isso enfurecia-o. Agora os seus descendentes tinham conseguido quebrar o feitiço e ele ficou muito contente, dando então a tal profunda gargalhada quando os viu chegar, que diga-se a verdade mais parecia a de um urso.

Os problemas no entanto não tinham acabado, suas altezas reais estavam muito feios e pouco apresentáveis para o reino os ver, cheios de ligaduras, cremes e tintura de iodo.

Naquela manhã chamou-os ao salão real e o rei apareceu com um escriba que escrevia tudo numa grande ardósia, o que o soberano dizia por urros.

- Príncipes, sei o que vos aconteceu…disse o rei circunspecto urrando.

- Mas como, Majestade? perguntaram os jovens príncipes, depois de terem lido o que o criado escreveu no grande quadro negro..

- Não importa como, tendes é que resolver o assunto das vossas feridas, não podeis aparecer ao povo dessa maneira, urrava ainda mais o pai.

- Mas como, Majestade?

-Calai-vos, só dizeis, mas como, mas como, não sabeis dizer mais nada? Mandei chamar a mestra das fadas de todo o reino, que por seu lado recebeu lições da fada do Universo, ela terá alguma ideia para vos curar. Arauto mandai entrar a fada Josebela.

Num instante a sala encheu-se de uma luz muito intensa e a fada Josebela apareceu com todo o seu esplendor.

- Dizei senhor, disse a fada muito respeitosa.

- Como é que podereis curar as feridas feitas pela bruxa Ziripela aos meus dois filhos?

- Senhor eu sei toda a história, nada me passa despercebido neste reino, mas estas feridas foram feitas no momento em que os príncipes estavam transformados em caracóis, com o tal pote de barro.

- E depois, disse o rei muito impaciente.

-São feridas também com bruxedo, por isso eles necessitam de efetuar três proezas impressionantes para reunirem três objetos, que juntos, transformarão os príncipes em belos mancebos como eram então.

-E quais são essas proezas? Perguntou o rei.

-Perdoai senhor, mas tenho de consultar os meus ancestrais livros e voltarei daqui a dois dias.

A fada saiu, o rei retirou-se para os aposentos e os príncipes foram ter com as primas Pimpinela e Bimbinela que estavam a conversar com as namoradas dos reais rapazes, as princesas Bindoleca e Bindolica que eram irmãs gémeas. Quando viram os príncipes naquele estado, gritaram: - Ai que horror assim não casamos convosco e desataram a fugir. Os rapazes olharam pela janela as suas noivas a entrarem na carruagem e a partirem a toda a velocidade e começaram a chorar. Pimpinela e Bimbinela faziam-lhes festas e consolavam os pobres desgraçados que com tanta lágrima aumentavam as feridas.

O s príncipes muito chorosos e fatigados retiraram-se para os aposentos. O tempo passava, a noite já ia alta e a tristeza não os abandonava.

Que triste sorte a nossa, Catrapuz! - disse Alcatruz com voz muito triste. São desgraças atrás de desgraças. Agora que eu já estava a pensar na nossa lua de mel no palácio dos nossos primos, no reino do Sião, é que nos acontecem estes contratempos todos.

Como vamos convencer as gémeas Bindoleca e Bindolica a continuar o noivado? Já sei o que vamos fazer - disse Catrapuz cheio de entusiasmo . Vamos falar com o barbeiro do reino para ele nos colar um pouco de pele de tripa de borrego, para disfarçar as feridas.

Mas mesmo que o barbeiro tenha sucesso, como vamos evitar que o nosso pai fale aos urros, apesar de eles serem reais… Ó Alcatruz só vês coisas negativas na nossa vida! Enquanto animava o irmão, Catrapuz teve uma ideia brilhante para recuperar o amor das noivas:- pedir ao mordomo do palácio para organizar um chá das cinco, com aqueles bolinhos de sementes que são oferecidos às noivas para que elas vejam os noivos mais bonitos.

Alcatruz recuperou o ânimo e acreditou que seria possível ter de novo o amor das noivas com os bolinhos milagrosos, tal como tinha acontecido com o tio Feiorolas, que acabou por casar com a tia Dengozina.

Alcatruz continuava a ver nuvens a pairar sobre eles e não resistiu a acinzentar o dia. Está bem Catrapuz vamos acreditar que o chá e os bolinhos dão resultado, mas ainda não deste solução para o nosso pai poder participar: -como vão as nossas noivas aguentar os urros?

Claro que o Rei Foribundo IV, que sempre tinha sido um déspota e governado o reino com mão de ferro, estava consciente que não podia continuar aos berros e aos urros. E não andava nada contente, não só por ter a escova de dentes entalada nas reais goelas, o que para além de constantemente lhe fazer cócegas, também o impedia de falar claramente, mas triste também pela triste figura com que os seus filhos se apresentavam na Corte.

O rei já se apercebera das dificuldades que o seu escriba tinha em entender os seus urros. E começava a ficar preocupado com o que ele escrevia e anunciava depois no palácio e ao reino, pois poderia não ser nada do que ele, o rei, tinha dito mas a interpretação que o escriba tinha feito dos seus urros. E isso poderia ter resultados muito funestos, pois até a independência do reino poderia estar em perigo, e o primo Frenesim aparecer a exigir a sua resignação, por estar incapaz de governar, já que da boca só lhe saíam urros e não falas.

Os filhos tinham voltado a ser homens a tempo inteiro, tinham conseguido, pelos seus meios livrar-se do feitiço que ele próprio lhes tinha arranjado, o que mostrava que não eram totalmente tontos, mas estavam ainda tão feridos e feios aguardando a cura prometida pela fada mestra do reino, a fada Josebela, e tão angustiados pela perda das noivas, que pouco o poderiam ajudar, tanto mais que não entendiam os seus urros e berros.

Alcratruz com as orelhas apenas presas à cabeça por finíssimas membranas estava horrível. Ele que até era um bonito rapaz estava ridículo com aquelas coisas penduradas de cada lado da cabeça. Valia-lhe os emplastros que lhe tinham colocado para manter as orelhas no sítio próprio, mas para segurá-los tiveram que passar-lhe uma ligadura pela cabeça e pelo queixo, o que lhe dava o aspecto de ter os "queixos apertados" por estar com dores nos dentes. Também a audição era quase nula. Os sons para entrar nos ouvidos tinham que trepar pelas finíssimas membranas e chegavam, ou melhor não chegavam, ao ouvido apenas ruídos. Por um lado isso era bom pois deixara de ouvir os urros do pai…

Catrapuz também não estava nada bonito, o nariz esborrachado, parecia uma bolacha que tivesse errado o percurso e em vez de entrar na boca tinha ficado ali presa. Toda a cara não tinha a cor rosada habitual, mas era roxa e negra, com altos e baixos. Claro que aí não fora possível colocar emplastros mas apenas cremes que ainda por cima faziam com que tudo na sua cara brilhasse.

Na verdade não é de espantar que as suas noivas Bindoleca e Bindolica se tivessem assustado e fugido a sete pés, provando mais uma vez que nem sempre o amor resiste a tudo…

O rei acordou um dia ainda mais incomodado e com uma angústia que não conhecia. Chegou a pensar que estava doente e que a culpa era da escova entalada nas goelas e achou que era urgente chamar o médico de serviço ao palácio para tratar do caso.

Mas o que ele sentia, sem saber, eram "remorsos" pelo que tinha feito aos filhos e estava "arrependido". Ora naquele reino em que fadas e bruxas vivem em quase sâ camaradagem, quando uma faz mal, a outra faz bem e vice versa, não havia espaço para remorsos ou arrependimento, sentimentos esses de quem ninguém ainda tinha ouvido falar. Assim o rei decidiu, naquele momento, que iria chamar o grupo de sábios pois queria saber mais do que se passava consigo e se seria bom que o reino passasse a usufruir desses sentimentos.

Entretanto a fada Josebela convocara todas as fadas do reino e em muitas horas de debate tinham chegado a conclusões brilhantes para curar os príncipes.

Os príncipes retiravam-se para os seus aposentos e passavam horas a conversar sobre as suas infelicidades, reviam todas as suas tristezas, e preocupações e choravam por terem um pai tão cruel que os fizera sofrer tanto. As noivas Bindoleca e Bendolica não mereciam o seu amor. Fugiram e não fizeram nada para os confortar.

Para que sofrer mais? Tinham sido bons estudantes. O Catrapuz era muito bom em humanidades, medicinas, línguas e diplomacias. O Alcatruz dedicara-se mais às economias, ao cultivo das terras, à construção de caminhos , casas, escolas e hospitais. Queriam os dois tor-nar as pessoas do reino mais felizes e fazer prosperar as riquezas naturais e o modo de alcan-çar o conhecimento para atingir maior progresso.

Mas como, se estavam tão feios que assustavam as pessoas e até as noivas? E se fugissemos, dizia o Alcatruz ? E se fossemos para fora ao encontro de outras pessoas? Já vi nas feiras e nos mercados, gente feia, aleijada mas com ar feliz. E eu já vi muitas famílias com filhos e velhinhos à volta a trabalharem.

-" Embora Alcatruz -"Embora Catrapuz. Vamos arranjar uma CARROÇA e ala que se faz tarde!

Quanto mais depressa melhor!. Experimentar não custa e podemos regressar... Assim fizeram ,desceram aos pátios interiores e falaram com um rapaz que guiava as carroças que saiam logo pela manhã, ao nascer do sol, para se abastecerem de alimentos para os habitantes do castelo. Eram amigos de brincadeiras desde crianças e pediram-lhe que não contasse nada a ninguém. Queriam dar uma volta para conhecer o reino . Prepararam um saco com roupas simples, botas e sapatos para andar no campo ,dois chapéus e dois bonés para resguardo e esconder as mazelas do nariz e das orelhas, uns lenços para atar ao pescoço e tapar o nariz, lápis para escrever, folhas de papel, caneta de aparo e frasco com tinta e ainda um farnel para o caminho e dias seguintes.

Procuraram algum dinheiro que tinham amealhado , partiram na carroça com o rapaz que lhes deu algumas instruções na forma de conduzir o cavalo e de o alimentar e mandaram-no de volta depois de lhe substituirem o carro e o cavalo com parte do dinheiro que levavam.

Resolveram mudar de nome para não serem reconhecidos. Assim o Catrapuz passou a chamar-se Sabichão e o Alcatruz seria Primoroso.

Olhavam com curiosidade os terrenos por onde passavam, analisavam o tipo das pessoas nem bonitas nem feias, normais e todas andavam nas suas vidas e ocupações . Pela tarde chegaram a uma quinta agrícola, dirigiram-se a homens que lhes pareceram serem feitores, apresentaram-se e ofereceram o seu trabalho. Iam vestidos com simplicidade e levavam nas cabeças o boné do Catrapúz e o chapéu do Alcatrúz para ocultarem a cabeça e as orelhas e não as mostrarem

Trabalharam assim no campo e aprenderam muito No fim do mês receberam um salário, tiveram direito a refeições e não passaram fome.
À noite já não eram caracóis, dormiam num celeiro, em cima de palha fresca e limpa e de manhã mulheres e homens atenciosos olhavam por eles. Entretanto, embora um pouco crestados do sol o tempo foi-se encarregando de cicatrizar o nariz e de prender melhor as orelhas. Não estavam famosos mas as dores tinham passado e não pareciam tão feios. Com os ganhos e como se mostraram pessoas capazes e de confiança conseguiram alugar dois quartos para dormir e como iam dando provas de competência e de mérito no trabalho ,foi-lhes concedida a habitação com uma cozinha ,dois quartos para dormir com armário para roupas e mais pertences e uma saleta com mesa de refeições e cadeiras que lhes servia também para escrever e ler.

Resolveram escrever um livro a que deram um nome duplo, pois destinava-se a ser desenvolvido e consultado pelos dois em dois tomos distintos

O LiVRO DA BOA CONDUTA __ Trata das pessoas, das humanidades do ler, da música, do gosto pelo saber

O LIVRO DO B E M FA Z E R __ Trata das coisas das pessoas, dos meios para alcançar os fins concebidos

Enquanto o Sabichão visitava pessoas doentes e ensinava nas escolas, o Primoroso fazia contas, fazia cálculos, ensinava a construir casas e armazéns para guardar e recolher cereais, frutos, e alimentos para os animais. Criou galinheiros ensinou a utilizar cavalos e bois e tudo prosperava.

Plantaram florestas, desenvolveram as pescas nos rios e toda a gente ia prosperando e aprendendo a ensinar e ajudar outras pessoas, imitando estes dois homens cheios de amor e de qualidades que eram amados e respeitados

O Sabichão conheceu uma linda e educada jovem de muito boas famílias, filha de um professor de novas medicinas e que o ajudava muito em todos os seus trabalhos e projectos. Leis, escolaridade, artes, saúde e resolveram casar, com muita alegria para amigos e familiares.

O Primoroso tinha encontrado também uma companheira ideal em beleza , e inteligência filha de um grande e generoso empresário .Ajudava nas contas e nos cálculos no escritório onde desenvolvia a sua actividade. Resolveram também casar. Os dois irmãos contaram às suas noivas a historia das suas vidas. Elas aceitaram e compreenderam o seu afastamento da família e prometeram amá-los e ajudá-los no reencontro e no perdão ao seu pai.

Casaram os irmãos no mesmo dia, numa festa que juntou as duas famílias. Chamavam-se as jovens Graciosa e Preciosa

O pai da Graciosa, o professor de novas medicinas tinha reparado no nariz e nas orelhas dos dois irmãos. Chamou-os e ofereceu-se para lhes corrigir os defeitos Já nessa altura estavam para nascer os primeiros bébés das duas futuras mães. Assim foi simultâneo o nascimento duma menina da Graciosa, que teve o nome de Doçura e no mesmo dia nascia da mãe Preciosa ,um menino que se chamou Venturoso.

Catrapuz e Alcatruz choraram de alegria por terem realizado o terceiro objecto do amor , alcançado pela sua coragem em começar de novo com a carroça , atingir a segunda proeza com a criação do livro do bem saber e do bem fazer e a terceira proeza com o amor e a criação dos filhos que tinham nascido exactamente ao pôr do sol, na hora de quebrar o feitiço da bruxa e deixarem finalmente de ter restos das lesmas.

Os pais cansados pelas emoções dos nascimentos foram descansar e de manhâ quando se viram ao espelho acharam-se belos e perfeitos como os príncipes Alcatruz e Catrapuz

Algum tempo antes quando o rei Furibundo IV chorava, de tanto soluçar sentiu que se desprendia das suas cordas vocais a escova que tanto o tinha atormentado.

Poderão reencontrar-se e perdoar-se pai e filhos ou é preciso esperar para ver como procede este rei? Que se teria passado na corte do rei durante a ausência dos filhos?

FIM DO II EPISÓDIO

domingo, 4 de março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

Fui ver um filme espectacular, que penso ter ganho o oscar do melhor filme estrangeiro: A Separação. Aqui deixo uma critica brasileira muito interessante também. Não percam o filme.
A SEPARAÇÃO (A SEPARATION) (JODAEIYE NADER AZ SIMIN)
Equipe Cinema Detalhado - Critica de Tiago Brito

A Separação é um filme Iraniano que está surpreendendo o mundo todo e arrebatando prêmios em diversos países. Asghar Farhadi é o diretor responsável pela produção e esse ano conquistou o Urso de Ouro por esse belíssimo trabalho. Na semana passada foi confirmada a candidatura do longa ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e sua presença na cerimônia do Oscar é praticamente certa. Todo esse alvoroço ao redor da película é bastante justa e poucas vezes vi um filme com a qualidade que este me apresentou.

A história começa com uma mulher, que deseja se divorciar, para viver fora do Irã. O problema na situação toda é que ela deseja levar a sua filha de 11 anos consigo, mas esta não pode deixar o país sem permissão e consentimento do pai, que fez questão de ser contra a situação. A decisão de Nader, pai da criança, faz com que Simin, mão da menina, deixe a casa e se estabeleça uma separação informal. A filha do casal fica com o pai, mas este se encontra em uma situação muito complicada com todos os acontecimentos recentes. Além de cuidar dela, ele tem consigo a missão de cuidar de seu pai, que sofre do mal de Alzheimer. Ciente da dificuldade que irá enfrentar, Nader decide que é melhor contratar alguém para ajudá-lo em casa. Assim sendo é contratada uma jovem, grávida, que trabalha escondido do marido para ajudar nos custos da casa. As coisas ficam realmente complicadas quando ela sofre um aborto espontâneo no trabalho e sua família decide acusar Nader pelo ocorrido.

O roteiro do filme é simplesmente sensacional. Não existem culpados e nem mesmo inocentes. Todos sofrem e ninguém sabe ao certo a sua porcentagem de culpa na crise em que as famílias vivem. Todos os personagens vivem um conflito moral com a situação, seja por ter saído de casa, por ter empurrado a funcionária, por ter sido descuidada ao sair de casa ou por mentir para as autoridades. Todo esse pensamento se revela capaz de ser analisado através de princípios éticos e religiosos. Mais complexo do que isso, a trama mostra indiretamente quem mais sofre em casos de separação, os filhos do casal. A jovem Termeh vê sua família cada vez mais no fundo do poço e não consegue fazer nada para concertar a situação. Seu sofrimento nem sempre é externalizado mas está presente em seus pensamentos, falas e questionamentos.

A opção do diretor por uma câmera mais inquieta e presente faz com que tudo seja desmontrado de forma tão realista que chega a dar a impressão de que estamos diante de um documentário. As imagens percorrem nas mínimas expressões dos personagens e enriquecem ainda mais o trabalho do grande elenco que compõe a obra. O desenvolvimento circunda um meio sentimentalista e ao mesmo tempo severo e cru. É possível se sentir raiva, pena, ódio e compaixão por qualquer personagem do filme. Temos pena da mulher que perde o filho, mas temos raiva dela por ter deixado um velho doente amarrado em uma cama. Temos pena de um pai que não agiu com más intenções e que assim sendo pode ter matado um feto, mas temos raiva dele por mentir no depoimento e fazer questão de acusar a mulher sem provas do que realmente aconteceu.

Volto a clamar por mais espaço para essas produções em solo brasileiro. Estou falando de um dos filmes mais marcantes que já vi e desejo que todos tenham a oportunidade de admirá-lo da forma que este merece. Ganhar o Globo de Ouro ou o Oscar é pouco coisa, apesar do grande favoritismo, diante daquilo que esse filme merece. Ele merece ser visto por aqueles que, antes mesmo de sentar numa sala ou numa poltrona, já o crucifica por ser de uma país como o Irã. Acreditem que um trabalho sensível, incrível e moderno como esse deve ser apreciado por todos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Como o meu neto desenha bem...

Vi o filme cavalo de guerra que adorei mas que me fartei de chorar, desde criança que choro com filmes sobre crianças ou animais.
Ontem vi o Albert Nobbs, não é um filme para o grande público mas para mim é uma história que obriga a reflectir sobre a condição humana, é um filme que ultrapassa as personagens e nos obriga a pensar o que é verdadeiramente a vida de cada um. Gleen Close está estupenda. Não é sensacional, mas faz pensar e dá pano para mangas em discussões de grupo.
Deixo aqui uma crítica que me parece interessante do Marcelo Forlani

Direção:
Rodrigo García

Roteiro:
Glenn Close, John Banville, George Moore

Elenco:
Glenn Close, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Jonathan Rhys Meyers

Albert Nobbs (Glenn Close) era o garçom perfeito: pontual e preciso nas suas entregas, silencioso e praticamente invisível aos olhos dos patrões. Seu tamanho diminuto ajudava na discrição, o resto vinha de sua postura. Em uma cena do filme, a jovem Helen Dawes (Mia Wasikowska) diz apenas "Sr. Nobbs, você é muito estranho". Ele realmente é e tem um motivo para isso. Albert Nobbs é na verdade uma mulher que se veste e vive como um homem há mais de 30 anos. O único momento em que se solta e é ela mesma é quando se tranca no quarto, olha para a foto de sua falecida mãe, e começa a contar as moedas que poupa com seu trabalho. Centavo por centavo, ela vai juntando dinheiro para um dia abrir sua tabacaria.

Seu segredo é maculado quando a dona do hotel onde trabalha contrata um pintor para dar um jeito em algumas paredes e o coloca para dormir no mesmo quarto (e cama) de Nobbs. O estranho se chama Hubert Page (Janet McTeer) e ao descobrir que Nobbs é uma mulher promete não contar para ninguém. Neste ponto de mudança para o rumo da história, descobrimos que Page também é uma mulher que se traveste para conseguir trabalhar e sobreviver na difícil Irlanda do século 19, é casada com uma costureira e muito feliz. Os sonhos de Nobbs passam a parecer mais próximos de se concretizar do que ela própria imaginava antes.

O diretor colombiano Rodrigo García (Nove vidas, Destinos Ligados), que despontou com o belo Coisas que Dizemos Só de Olhar para Ela, não carrega para o cinema vícios que poderia ter adquirido fazendo séries de TV - talvez por ter trabalhado basicamente na HBO, onde comandou episódios de Família Soprano, Carnivale, A Sete Palmos e Em Terapia. Albert Nobbs (2011), inspirado no conto "The Singular Life of Albert Nobbs", de George Moore, e com roteiro da própria Glenn Close em parceria com John Banville, tem o ritmo de um filme europeu de época, com poucos (mas importantes para a trama) acontecimentos e muitos silêncios.

Passadas estas características - que podem ser um bloqueio para muita gente - é preciso dizer que as atuações de Glenn Close e Janet McTeer são excelentes. É quando estão conversando que finalmente vamos conhecendo melhor Albert Nobbs e sabendo como ele/ela chegou até ali. São nestes momentos raros de guarda baixa que Nobbs se engasga com uma piada e quase demonstra um pouco de sentimento. Na melhor cena das duas juntas, quando caminham na praia, é possível ver na dureza de seus passos, o sofrimento de todos os anos que passaram se escondendo atrás das calças.

As atuações das duas eclipsam o restante do elenco. O romance vivido por Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas) e Aaron Johnson (Kick Ass) só serve para tentar dar algum sentido ao desfecho da história. E Jonathan Rhys-Meyers aparece de forma descartável como um bon-vivant, em papel que nada acrescenta à trama.

A mudança de sexo é uma dessas transformações a que um ator se submete e sempre foi cara à Academia de Cinema de Hollywood, que já premiou Dustin Hoffman em Tootsie e Hilary Swank em Meninos Não Choram. Pena que Close e McTeer não tenham um filme à altura dos papéis que criaram.