sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ontem encontrei-me com o meu netnho, filho e nora em Óbidos. Fomos ver o que era a tal feira medieval. O meu neto estava lindo e feliz. Brincámos um bom bocado e fomos visitar a feira que tem uma entrada caríssima para aquilo que vimos lá dentro «um centro comercal ao ar livre», barracas meio manhosas a imitar o medieval a venderem tudo e mais alguma coisa, é uma feira igual a tantas outras que existem por este país fora, com o objectivo de venderem, venderem. Devia chamar-se simplesmente Feira de Óbidos  Depois um cortejo medieval com os elementos calçados com sandálias ou chinelas das sapatarias normais. 
O meu marido tirou imensas fotos ao neto e no fim alguém lhe roubou a minha querida máquina digital. Vou estar algum tempo sem fotos tiradas por mim. Tive tanta pena, mas o nosso país é de alguma gente que cobiça alheio.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fofinhas estas minhas netinhas.


Vim para o Ribatejo passar uns dias de féras, nesta casa que temos com jardim e terreno com árvores de fruto. Temos descansado muito e vivido uma vida pacata. No outro dia fui à Lourinhã lanchar com uns amigos e hoje quando visitamos amigos de muitos anos e eles moram longe de nós, quando os voltamos a ver é como se tivessemos falado com eles no dia anterior. Foi assim hoje com a Graça, o António e a Sara. Que belo almoço vegan ela preparou para nós e que linda casa e terreno com horta e jardim japonês, casa de madeira para o ateliê de pintura e ferramentas para a agricultura e jardinagem. Estes grandes bailar
inos da Gulbenkian do tempo do Walter Gore, primeiro director artístico do ballet Gulbenkian, grandes professores, formadores de grandes bailarinos espalhados por todo o mundo, depois de reformados voltaram à terra e à paz de um local paradisíaco junto ao mar. Estão de partida para férias, por essa Europa fora guiando o seu carro com um atrelado, numa vida simples e frugal. Que admiração que eu tenho por eles e que linda buganvilia branca descia pelo telhado da casa. Simplesmente belo. Que ambiente de cultura e ao mesmo tempo de despojamento vivido hoje.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


Crónica de Clara Ferreira Alves publicada na última edição do Expresso .

"É a falta de cultura, estúpido!

Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.

Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.

Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.

A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).

Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.

A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.

O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.

A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.

Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.

Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."

CFA