sábado, 18 de dezembro de 2010

O Natal aproxima-se


O Natal aproxima-se e no dia 24 vou reunir a família, marido, filhas, filhos, nora, genro, netos, cunhados, sogra, tia, mãe do meu cunhado e sobrinha. Somos ao todo 17. Vamos comer o bacalhau, abrir os presentes, neste ano é o amigo oculto, cada adulto dá só um presente e recebe só um, não sabe de quem, só o que o compra é que sabe. As crianças serão as mais contempladas e assim deve ser, o Natal representa a união da família na qual as crianças são a esperança do futuro. O Natal é tempo de festa e de perdão, é tempo de tirar do nosso coração rancores, invejas e tudo o que sejam más energias, más emoções. Todo o ser humano faz na vida actos bons e actos menos bons. Lembra-me sempre quando falo nisto da canção do Rui Veloso « Mostra-me o teu lado lunar»:
«(...)Toda a alma tem uma face negra
Nem eu nem tu fugimos à regra
Tiremos à expressão todo o dramatismo
Por ser para ti eu uso um eufemismo
Chamemos-lhe apenas o lado lunar
Mostra-me o teu lado lunar (...)»

Mas é Natal e no Natal quem acredita na união universal dos seres humanos, da natureza e do equilíbrio entre todos os elementos da mesma sente que vale a pena amar o próximo. Isso traz paz e alegria, traz conforto. Natal é sempre que o homem quiser, esta frase tão estafada é sem sombra de dúvida uma certeza. No dia 25 vou cá ter em casa dois amigos seniores que estão sozinhos em Lisboa e vamos festejar com eles e talvez com outro casal, aquele que irá este ano pela primeira vez para um lar, aquela querida velhinha que aos 84 anos me deixou as suas flores na véspera da partida para uma nova casa.
Irei todos os anos no dia de Natal abrir a porta a quem esteja só, a partir deste ano. Quando começamos a envelhecer devemos retirar do corpo todo o desejo de bens materiais e repartir com os outros o que temos. Devemos escrevinhar de azul os oceanos e contar as estrelas crendo que lá dentro delas está alguém que nos protege. Temos que amar a mãe terra, a natureza que nos dá o sustento e Deus que no infinito aguardará um dia por nós.
Deixo-vos esta oração do Cântico dos Cânticos de S. Francisco de Assis que é das poesias mais belas que eu tenho lido e quero ser cada vez melhor pessoa, de coração lavado e com esperança.

Louvado seja Deus na natureza,
Mãe gloriosa e bela da Beleza,
E com todas as suas criaturas;

Pelo irmão Sol, o mais bondoso
E glorioso irmão pelas alturas,
O verdadeiro, o belo, que ilumina
Criando a pura glória - a luz do dia!

Louvado seja pelas irmãs Estrelas,
Pela irmã Lua que derrama o luar,
Belas, claras irmãs silenciosas
E luminosas, suspensas no ar.

Louvado seja pela irmã Nuvem que há-de
Dar-nos a fina chuva que consola;
Pelo Céu azul e pela Tempestade;
Pelo irmão Vento, que rebrama e rola.

Louvado seja pela preciosa,
Bondosa água, irmã útil e bela,
Que brota humilde. É casta e se oferece
A todo o que apetece o gosto dela.

Louvado seja pela maravilha
Que rebrilha no Lume, o irmão ardente,
Tão forte, que amanhece a noite escura,
E tão amável, que alumia a gente.

Louvado seja pelos seus amores,
Pela irmã madre Terra e seus primores,
Que nos ampara e oferta seus produtos,
Árvores, frutos, ervas, pão e flores.

Louvado seja pelos que passaram
Os tormentos do mundo dolorosos,
E, contentes, sorrindo, perdoaram;
Pela alegria dos que trabalham,
Pela morte serena dos bondosos.

Louvado seja Deus na mãe querida,
A natureza que fez bela e forte:
Louvado seja pela irmã Vida
Louvado seja pela irmã Morte.

Amém


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Tenho um sentimento contraditório

Tenho sempre um sentimento contraditório quando vejo na televisão os programas de solidariedade social em que as crianças dão o rosto. Hoje vi que estavam a oferecer um cabaz de Natal e brinquedos a três crianças que foram entrevistadas anteriormente e que disseram que passavam fome. A pobreza a este nível doí e doí muito. Não sei se é necessário estar a mostrar as crianças, alertar as pessoas para o que se passa no país, sim, ouvi-las sem mostrar o rosto também, mas mostrá-las, para quê? O que sentirá uma criança de 10, 11 anos ao saber que está a ser vista por milhões de pessoas e todos ficam a saber que ela é pobre, tem fome, quando isso nunca devia acontecer. As crianças não têm culpa, elas podem ser rotuladas ou marginalizadas pelos colegas, sei lá ou então ser chamada a «coitadinha». Ajudar, ser solidário, tirar ao que se tem e dar, SEMPRE, fazer das crianças esfomeadas estrelas de televisão e de programas para angariar audiências, NUNCA, há lugares próprios para levar o nosso contributo, há associações, igrejas, Banco Alimentar, Ongs aos quais podemos levar o que queremos dar. Eis um tema para reflexão.
Há televisões que abrem contas para entregar as verbas recolhidas a associações, claro que concordo, mas mostrar a pobreza das crianças, sendo elas a dar a cara, quando têm direitos adquiridos desde que nasceram, não. Sempre achei que dar é um acto discreto e silencioso, anónimo.
Deixo-vos esta canção antiga.

José Barata Moura - Vamos brincar à caridadezinha

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ontem foi o almoço do IEM














Ontem almoçámos num restaurante muito bom. Na Rua Ferreira Borges 193. Uma dúzia de raparigas já seniores ou quase todas seniores reuniram-se passados dois anos para matar saudades de tempos vividos há quarenta e tal anos. IEM - Instituto de Estudos de Mercado. Fazíamos entrevistas, tabulação e outras trabalhavam em máquinas precursoras dos processos mais tecnológicos que vieram depois.
Nestes almoços a pouco e pouco vão aparecendo novas caras que nós reconhecemos nos traços de jovens que foram. É por um lado nostálgico, por outro lado um momento feliz de reviver um passado distante. Eu estive poucos anos lá, outras ficaram, outras saíram para várias vias de actividade: agências de publicidade, marketing, gestão financeira, outras formaram empresas, outras foram mesmo presidentes de empresa, só duas deste grupo acabaram por se licenciar e tirar mestrado, eu e a Mané. Umas são ricas, outras vivem das reformas e tomam conta dos netos, uma ou outra está mais deprimida, muitas viajam. Enfim são percursos de vida, caminhos diferentes, estradas que não se encontraram comigo a não ser há dois anos, apesar de com a Mané eu ter mantido um contacto mais chegado e com mais pontos de vista em comum.
Umas viúvas, poucas casadas, muitas divorciadas, umas doentes, enfim caminhos que se cruzam de dois em dois anos numa mesa de um restaurante agradável. Deste grupo maior um pequeno comité de quatro a cinco convivem mais durante o ano. Amiga confidente a Mané de quem eu gosto muito e me dá muito prazer a sua amizade. As minhas fotos ficaram más, mas é o que há.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Recebi uma herança tão marcante.

Há já algumas semanas que uma amiga de 84 anos me telefonou, eu conhecia-a mais ao marido durante o trabalho que eu realizei sobre a vinha e o vinho de Carcavelos, eles faziam vinho numa quinta que têm em Alapraia e ofereceram através de mim à Câmara um conjunto de objectos relacionados com a produção artesanal de vinhos. Eles eram tão queridos que eu comecei a telefonar-lhes de vez em quando e eles chegaram a assistir ao lançamento do meu livro. Agora como já são idosos venderam a quinta e chamaram-me lá para me oferecerem todas as rosas e outras flores pelas quais ela tinha especial carinho e queria que elas ficassem em boas mãos. Deu-mas a mim e eu fiquei muito comovida com tal gesto. Eles vão para um lar e eu ficarei com mais uma família para visitar e passear.
Fui lá à quinta deles com o meu jardineiro e agora o meu jardim está cheio de plantas e flores que durante anos foram tratadas com todo o carinho e vão continuar a ser. Que herança abençoada.
Obrigada Madalena.

Prefiro Rosas.... Ricardo Reis

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.