quarta-feira, 23 de junho de 2010

Uma pequena maravilha: a aldeia da Luz.


No sábado passado fui com amigos da Universidade visitar a aldeia da Luz, essa aldeia que ficou submersa e foi construída tal como ela era por causa da barragem do Alqueva. A aldeia é branca e silenciosa, como são as aldeias do Alentejo mas na realidade é uma réplica e como é viver nessa réplica? Os habitantes esses gostavam mais da outra, pois as suas casas foram construídas com o suor do seu rosto e com as mãos da família.
Esta visita foi também mais uma homenagem ao grande Benjamim Pereira que estava presente e que merece o reconhecimento do povo português pelo estudo, levantamento e publicações da nossa etnografia portuguesa nos mais variados aspectos (ver vídeos no youtube), último representante da equipa dirigida por Jorge Dias que fundou o Centro de Estudos de Etnologia, o Centro de Antropologia Cultural e Social e o actual Museu Nacional de Etnologia.
Ele programou o Museu da Luz, um edifício muito bonito (Pedro Pacheco e Marie Clément venceram o Prémio Internacional de Arquitectura de Pedra com o Cemitério, a Igreja e o Museu da Aldeia da Luz, em Mourão. Este prémio pretende reconhecer os projectos internacionais mais relevantes pelo seu significado arquitectónico e pela qualidade técnica ligada ao uso dos materiais.Para esta dupla, o Prémio Internacional de Arquitectura de Pedra vem juntar-se a outros dois, igualmente significativos:
Prémio Europeu de Arquitectura Luigi Consenza 2004 (Nápoles, Itália) e Prémio Menhir (Bilbau, Espanha) e com uma colecção recolhida por ele junto dos habitantes da terra para que o museu fosse um lugar de memória.
A Catarina Mourão e a Catarina Alves Costa passaram um filme que elas realizaram de homenagem ao Benjamim. Eu adoro os documentários que a Catarina Mourão realiza, ela vai ser a grande documentarista do século XXI, só comparada ao António Campos se bem que em épocas diferentes. Quem já viu «A Dama de Chandor», «Desassossego», «A minha aldeia já não mora aqui» e este último «Pelas sombras» de Lourdes de Castro, concordará com esta opinião «à semelhança de outros trabalhos anteriores - Pelas sombras está, segundo adianta, na "continuidade" nomeadamente dos seus filmes Desassossego e A Dama de Chandor -, Catarina Mourão, uma cineasta que também não pára de surpreender-nos pela virtuosa harmonia do seu cinema, parte justamente do quotidiano e do presente para retratar a artista, que se sabe aliás timidamente avessa a retratos e entrevistas. Foi por isso necessário ganhar-lhe a confiança. E assim foi. De resto, tiveram tempo.
Há mais de dez anos que Catarina conhecia Lourdes de Castro e a sua vontade de a filmar. Porque admirava a sua obra, tal como a sua inteligência e humor. Pelas sombras revela esses traços da artista e muito mais. De certa maneira, é também um filme "ecológico" de que não está ausente uma dimensão existencial e filosófica. Mas foi longo o "caminho": "Houve momentos em que senti que ainda não tinha uma ideia clara do que este filme ia ser, ele foi tomando forma na rodagem e depois mais tarde na montagem e lembro-me de perguntar à Lourdes se ela conseguia perceber o que eu estava a fazer a partir das cenas que ia filmando", recorda a cineasta. "Ela respondeu-me que nesse momento parecia-lhe que eu tinha uma data de post its uns em cima dos outros e que ainda não havia um fio condutor... mas que eu havia de o encontrar". Não se enganava. Era uma questão de tempo. E se há coisa que Catarina Mourão aprendeu com Lourdes de Castro foi a não ter pressa. »
O almoço foi encantador: gaspacho e joaquinzinhos fritos com pão e muitas outras iguarias alentejanas. Fiquei-me pelo gaspacho e três carapaus, à tarde numa taberna três homens com vozes maravilhosas cantaram para os que ficaram em terra. Uma parte do grupo foi andar de veleiro por cima da aldeia submersa, confesso que impressionou a ideia e não fui, não, a aldeia lá no fundo não me atraiu, preferi as lindas vozes alentejanas. «Trás, trás, oliveiras, olivais, pintassilgos, rouxinóis, caracóis e bichos móis......

1 comentário:

Multiolhares disse...

Deve de ser triste pegarmos nas vidas e as transportarmos para outro lugar, ainda que semelhante.
beijos