terça-feira, 19 de agosto de 2008

Hoje o vento sopra forte e eu oiço o ruído do mar...




O MAR

Ondas que descansam no seu gesto nupcial

abrem-se caem

amorosamente sobre os próprios lábios

e a areia

ancas verdes violetas na violência viva

rumor do ilimite na gravidez da água

sussurros gritos minerais inércia magnífica

volúpia de agonia movimentos de amor

morte em cada onda sublevação inaugural

abre-se o corpo que ama na consciência nua

e o corpo é o instante nunca mais e sempre

ó seios e nuvens que na areia se despenham

ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas

só silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões

e só eternidade do mar ensimesmado unânime

em amor e desamor de anónimos amplexos

múltiplo e uno nas suas baixelas cintilante

só mar ó presença ondulada do infinito

ó retorno incessante da paixão frigidíssima

ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente

ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!

António Ramos Rosa

Facilidade do ArLisboa,

Caminho, 1990

3 comentários:

Pena disse...

Simpática Amiga:
Um fantástico e belo poema feito ao mar. Mar, de inspiração poética, de sonhos, de devaneios, de ternura e de beleza.
Brilhante escolha.
Gostei muito. Excelente!
Beijinhos de respeito, estima e consideração.
Sempre a admirá-la e ao que escreve genialmente numa forma poética sublime

pena

bolodechocolate disse...

Anad,desta vez excedeu-se.O senhor António Ramos Rosa é de nos deixar de gatas,derreadas sob o peso torrencial das suas magníficas palavras e da força explosivamente poéticas das imagens mentais que elas em nós despertam.
Arrasador.Tou de quatro nina!
Fique bem.Inté.Dri

Manuela disse...

Aninhas,

Sabes ? O Poeta, como nós lhe chamávamos na rua, era meu vizinho e, este poema fez-me lembrar uma das últimas imagens que guardo dele, nesse tempo.
Por volta das três ou quatro da tarde, atravessava a rua, enfiando um sobretudo por cima do pijama e, lá ia ao café da esquina, um D. Quixote trazendo ainda nos olhos as pás dos moinhos, a mostrar que os poetas não têm apenas fome de palavras.
Gr.Bjoca
Mané