sexta-feira, 19 de março de 2010

Uma dia perfeito, eu a Mané e o Fernando Pessoa




Hoje voltei a outro bairro da minha infância e juventude. Quando saí de Algés, aos cinco anos e meio fui viver para o Bairro de Campo d'Ourique onde vivi até mais ou menos aos vinte e seis, mesmo depois de casar pela primeira vez vivi lá noutra rua três anos. É um bairro com muito comércio hoje em dia, diferente daquele em que vivi. Como já estou farta de dizer eu não vivo do passado, por isso foi bom recordar, mas não voltaria a nenhum lugar onde vivi e eu mudei de casa muitas vezes. Gosto do novo, daquilo que não conheço, daquilo que posso descobrir. Gosto do presente, do agora. Só me fez impressão passar pelo Europa, onde eu ía ao cinema com a minha mãe e depois atravessávamos a rua e íamos comer na Aloma, pastelaria que ainda lá está, dois pastéis de nata com duas laranginas. As memórias nesse momento tornaram-se mais fortes, assim como quando avistei a igreja de Santo Condestável, onde passei devo confessar bons momentos. O pároco era jovem e fazia actividades fantásticas, chamava-se Horácio. Tinha uns grandes olhos azuis. Jogava à bola com os rapazes no átrio da igreja e nas tardes de sábado projectava filmes variados na cripta para todos, os que andavam na catequese, escuteiros ou guias de Portugal. Podíamos levar os amigos. Foi aí que eu vi Spartacus, Quo Vadis, a Túnica, os filmes de Joselito e da Marisol, os filmes da Lassie, desenhos animados, enfim foram tardes muito engraçadas, depois ia ver os mesmos filmes históricos/religiosos, com a minha mãe e as minhas tias e primos no cinema Paris, na Rua de Santo António à Estrela, por altura da Páscoa, na quinta feira santa e em seguida visitávamos sete igrejas, aí não havia lanche porque estávamos na Quaresma.
Na cripta da igreja de Santo Condestável, também havia catequese onde eu andei e onde também fui catequista e cantei no coro da missa da catequese, todos os domingos às 10h da manhã.
Lembrei-me ontem desses momentos, mas para a frente é que é o caminho.

Pois encontrei-me com a minha querida Mané, à porta da Casa Fernando Pessoa, na mesma rua onde uma tia minha, irmã do meu pai tinha uma moradia de dois andares, ela ainda lá está, a minha tia já morreu e o meu primo já a vendeu pois vive no estrangeiro. Nunca tinha ido à Casa de Fernando Pessoa. É um prédio muito bem recuperado, cheio de versos repetidos na parede, em todos os andares e com vários tipos de letra. Comovi-me com o seu quarto. Um homem que foi tão incómodo para a família e cuja família usufruiu tanto com os proventos dos seus livros. Os génios são mal compreendidos, acho que é sempre assim, porque têm uma angustia existencial mais apurada do que um ser comum e sofrem através da sua arte, seja música, poesia, pintura ou outra. Excepto os génios comerciais, também os há, mas esses tornam-se banais.

O seu pequeno quarto onde ele viveu os últimos quinze anos da sua existência, era pequeno e simples, assim como a sua secretária. Acho que a direcção da casa desde sempre que pede a artistas plásticos que façam instalações nesse quarto referente aos heterónimos, mas como não coloca um texto , um pequeno texto na parede sobre a instalação, eu quando olhei para a cama vi uma bata de médico e um estetoscópio na cama e pensei, mas o que é isto, o que é que isto representa? Eu que gosto tanto de Pessoa e conheço os seus heterónimos, não compreendi. Perguntei a um rapaz e ele disse-me que era uma instalação artística dedicada a um dos heterónimos, a Ricardo Reis que era médico e por isso estavam vários medicamentos na estante dos livros e a bata e o estetoscópio na cama e o instrumento de medir a tensão arterial na secretária. Sinceramente acho que as pessoas merecem uma explicação da instalação quando visitam o quarto, nem eu me lembrava da profissão de Ricardo Reis, quanto mais alguém que está divorciado da arte , da ciência ou da cultura do seu país. A comunicação deve ser uma constante num equipamento cultural senão eles servem para quê e para quem? Escrevi isso no livro que eles têm na loja para avaliação dos visitantes. Depois percorri os restantes andares, uma biblioteca com o Pessoa do Almada, com um funcionário muito simpático que nos deu todas as informações, um auditório, gabinetes administrativos, a árvore genealógica do Pessoa pendurada num vidro do patamar da escada, não achei muito interessante, até porque não há uma sala dedicada a Pessoa para se fazer uma leitura completa, os objectos estão espalhados pelos andares, dispersos e sem contexto, os cartões de identidade aqui, os instrumentos de cortar o seu cabelo e barba nos últimos quinze anos, oferecido pelo barbeiro que o tratava nessa área num andar mais acima, os óculos e outros objectos pessoais noutro lugar, todos numas vitrinas muito feias que já não se usam, mas as actividades parecem-me muito boas, boa divulgação da poesia com cursos, serviço educativo, serviço de biblioteca bom. Digamos que não gostei da forma, mas o conteúdo é bom. No andar de cima uma exposição de fotografia que não me agradou, nunca tive muito fascínio por fotos manipuladas, necessitam de ser muito boas e eu já vi algumas noutros sítios como por exemplo a Gulbenkian das quais gostei muito. No átrio à entrada o horóscopo do Pessoa. Sol e Vénus em Gémeos na 8ª casa, na astrologia tradicional esta casa é de confronto com o mundo e perdas, ele tem também a 12ª. casa em Escorpião com Júpiter e Marte, que a astrologia tradicional interpreta como mediunidade, ocultismo e fatalismo. Digamos que ele tem planetas nas piores casas do mapa astral, mas tem no meio do céu, o melhor lugar, a lua e urano, a relação com a mãe, o sonho, a inspiração, e estar adiantado no tempo e por isso a não compreensão dos outros. Foi ele que fez os horóscopos dos seus heterónimos, pois gostava muito de astrologia, ele era ávido de conhecimento. Comprei na loja para ler aos meus netos, livros de poesia, um sobre o poeta.

Depois de sairmos da casa eu e a Mané deixámos Pessoa e fomos tratar de coisas mais comezinhas, uma boa refeição de peixe grelhado, um sargo para as duas com legumes, acompanhado de água porque eu não bebo vinho. A Mané também tem as suas dietas, mas ontem comeu uns petiscos que eu não posso nem tocar: carapauzinhos fritos de entrada, daqueles que se come tudo, menos o rabo e uma maçã assada no final. Eu comi o peixe e no final uma papaia. O restaurante é óptimo, defronte do mercado, chama-se Verde Gaio, na Rua Francisco Metrass, 18. Recomendo, está sempre cheio e o peixe é muito fresco.

Antes de partirmos fui a uma loja de brinquedos que eu adoro neste bairro a Sig Toys, na Rua Tomás da Anunciação, 58 B., http://www.sigtoys.com/. Comprei brinquedos da DJECO www.eurekakids.net/pt/brinquedos/djeco. São do melhor.

Depois cada uma foi para os seus afazeres e agora fiquei com este sublinhado por debaixo das frases que não consigo tirar. Desculpem.


5 comentários:

Anónimo disse...

Que memória fabulosa !
Autentica visão Raios X
Assimilaste poderosa
As mesmas coisas que eu vi!


Mesmo de partida tinha que deixar
esta nota a quem nunca vi tomar qualquer !

Obrigada
Aninhas
Até Domingo
Bjinhos

Elaine disse...

nunca lá fui...

TOZE Canaveira disse...

Obrigado. Também muita luz, sinónimo de alegria, em tudo o que faça.
Beijinho.
Bom fim de semana

Pé na estrada disse...

Um excelente fim de semana tb para si.
Bons ambientes e poesias, este é um fim de semana com imensos significados simbólicos.
Um abraço

isabel victor disse...

Belíssimo, Ana !
Re.encontro-te nestes textos ...

Fiquei presa ao que contas. saborosíssima narrativa

A.D.O.R.E.I




Um imenso abraço


iv