segunda-feira, 21 de abril de 2008

CENA II

As riscas largas estão na moda este ano. Sempre gostara de riscas, azuis e brancas. Não as usava muito porque a engordavam, pensou ela enquanto espreitava as montras na Avenida. De repente uma voz longínqua - lembras-te de mim, claro que ela se lembrava, abraçou-o emocionada, os passeios a pé às tantas da manhã em Lisboa, da Praça do Chile a Campo de Ourique. No autocarro para casa, voltou a pensar nas riscas largas e numa dieta, num ginásio e num trabalho diferente. Uma viragem de cento e oitenta graus. Talvez até mudar de casa. Podia convidar amigos para jantar, comprava uma mesa grande onde coubessem cinco a seis pessoas. Se tivesse uma casa decente teria convidado hoje o João, há quanto tempo não o via. Divorciado pela segunda vez, podia reflectir com ela o constante fracasso das relações amorosas. Estava exausta, o que queria na realidade era dormir. O autocarro deu uma curva apertada quando se preparava para sair e desiquilibrou-se caindo desamparada no chão, fechou os olhos e viu o rei e a rainha no alto do armário da cozinha a rirem-se de forma desengonçada - cuidado, podem cair para cima de mim, gritou ela e eles a rir a rir. Acordou numa maca no corredor dum qualquer hospital.
Está a abrir os olhos - Srª. D. Isolda, está-me a ouvir, perguntou-lhe uma mulher de bata branca inclinada sobre ela, sim, sussurrou, lembra-se do que aconteceu, a senhora caiu, a voz estridente ecoava nos ouvidos, a senhora caiu, sabe porquê? Foram os frascos, lá em cima no armário, está a delirar concerteza, então esta queda não foi dentro de um autocarro? perguntou para os bombeiros que a tinham trazido na maca. A s-e-n-h-o-r-a c-a-i-u n-o autocarro, disse prestimosa a enfermeira falando com voz arrastada. Ela tem alguém de família lá fora? Não, não tinha ninguém, ela era a família, a família lá fora, mas como é que... a dor aguda na perna impediu-a de continuar a pensar. Doi-lhe, sim aqui, disse apontando a perna. Segue para radiografia. E lá ia ela a rolar pelo corredor, sem fundo, escuro, escuro. As máquinas brancas pareciam a figura gigante a gesticular, perto da banheira, as etiquetas para um lado e os frascos para o outro. Não quero...gritou num ronco que fez estremecer as cortinas de plástico. Então se calhar tem a perna partida e não quer tirar uma radiografia? Deitou-se conformada. Ela era a doente e a família lá fora. Por favor srª. enfermeira, diga à minha família que está lá fora que eu parti a perna, ah afinal está alguém da família desta senhora lá fora. Como se chama, João, é o meu marido que se chama João.
Sentiu um cheiro nauseabundo e abriu os olhos. Ah ainda bem que acordou, disse-lhe risonha a companheira do lado. Também parti uma perna, foi no ateliê, bem não foi bem no ateliê, foi no antigo quarto do meu filho, que eu agora transformei em ateliê desde que ele se foi embora...o meu marido está lá fora, chama-se João. Ah, mas agora não é a hora das visitas, só das duas às quatro, senhora enfermeira, desculpe incomodá-la mas já que entrou podia informar esta senhora se o marido dela ainda está lá fora. Marido? Não veio cá ninguém, como se chama o seu marido? João, chama-se João, mas ele tinha que viajar, já partiu no avião das dez horas da manhã, respondeu com voz baixa. Então nada feito, já são onze e vinte, disse saindo apressada. A senhora ainda tem marido, mas o meu já morreu, foi por causa disso que fui aprender a pintar. Vendo bastante, tenho muitas encomendas, cavalos, pinto cavalos, com cores quentes em imaginários da Amazónia. Fica muito bem em paredes brancas.O João partiu no avião das dez, quando éramos jovens faziamos passeios da Praça do Chile a Campo de Ourique. Vejo que são um casal muito unido, hoje em dia é tão dificil encontrar um casal que se ame de verdade. Eu e o meu marido também nos demos sempre bem, apesar de termos tido...Quando sair daqui vou ter com ele, vamos dar passeios em Londres, do Brithish Museum até Picadilly Circus, Trafalgar Square. Já vejo que é muito viajada, eu saí pouco, a viagem maior que fiz foi a Santiago de Compostela, mas o que eu gostava mesmo era de ir à Amazónia, trazia mais paisagem para os meus cavalos, ai desculpe está a descansar, sabe eu sou muito faladora. Depois em Trafalgar Square compravamos um cachecol em caxemira azul escura com riscas vermelhas e brancas e bebiamos um café. Avise a sua companheira quando ela acordar, disse a enfermeira chefe entrando de rompante, que por volta das duas vai fazer uma pequena cirugia ao pé. Almoça mais tarde e tem que tirar a dentadura para este recipiente.

2 comentários:

Carlos Barros disse...

OLá, bonito texto com um cheiro...especial a saudade.

beijo

aviso sim senhora

Um Momento disse...

HUm...
O REi e rainha afinal...andam aí...
Mas onde andarão as "cabeças "deles?...
Estou a adorar ler estas "cenas"

Até já:)

(*)